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LIVRE ARBÍTRIO EM SANTO AGOSTINHO

O LIVRE-ARBÍTRIO COMO UM BEM E PROVENIENTE DE DEUS DE ACORDO COM O LIVRO II DA OBRA O LIVRE-ARBÍTRIO

DE SANTO AGOSTINHO

 

Wellington Carvalho de Macêdo[1]

 

O presente texto estuda o tema da vontade livre do homem segundo o Livro II da obra O livre-arbítrio[2] de Santo Agostinho. A temática desse texto está voltada para a argumentação de Agostinho na tentativa de provar que o livre-arbítrio é um bem e proveniente de Deus. O texto aqui desenvolvido, começa apresentando uma breve contextualização da obra em questão, o porquê seu autor a escreveu e o seu método. Posteriormente, será tematizada a prova agostiniana da existência de Deus. Com isso, será discutida a argumentação a favor do livre-arbítrio como um bem, culminando na afirmação de que ele provém de Deus. A questão do mal também será estudada, tendo em vista que, segundo Agostinho, o mal está ligado ao fato do homem possuir a vontade livre. Por fim considerar-se-á que o mal está ligado à moral.

 

PALAVRAS-CHAVES: Agostinho, livre-arbítrio, Deus, bem, mal, moral.

 

1 INTRODUÇÃO

 

Depois de convertido ao cristianismo católico e batizado, Agostinho tenta voltar a Tagaste, na África do Norte. No entanto, sua mãe[3] falece, enquanto eles esperavam a partida da embarcação que os levaria à Tagaste. Motivado pela morte de sua mãe, Agostinho decide ir e ficar em Roma no inverno do ano de 387 e todo o ano de 388.

Desejando prevenir seus amigos e, se possível um bom número de pessoas, da doutrina errônea e equívoca dos maniqueus[4], Agostinho escreve vários tratados entre os quais O livre-arbítrio. Agostinho começa a escrevê-lo em 388. Ao voltar para Tagaste continua a escrevê-lo, mas, só o termina em Hipona, África do Norte, por volta de 394/95, quando já é sacerdote[5] da Igreja Católica[6].

Agostinho defende que o livre-arbítrio é sempre um bem concedido ao homem por Deus, mesmo que o homem utilize-o de forma errônea, o que provoca o mal. Para sustentar tal afirmação, Agostinho desenvolve uma das teorias mais interessantes do período Medieval, acerca da liberdade da vontade e do mal.

 

2 PRIMEIRAS ASSERÇÕES

 

A obra O livre-arbítrio é escrito em forma de diálogo, entre Agostinho e seu amigo Evódio, e trata sobre a vontade livre do homem e a origem do mal[7]. A principal afirmação de Agostinho é que o livre-arbítrio[8] é um bem concedido por Deus.

No Livro I do O livre-arbítrio, Agostinho e Evódio chegam à conclusão que o homem possui o livre-arbítrio (a vontade livre). Porém, diante da afirmação de Agostinho de que o livre-arbítrio é um bem dado por Deus, Evódio levanta um problema ao afirmar que é por tal liberdade que o homem peca: “O quanto me parece ter compreendido no livro anterior, é que nós só possuímos o livre-arbítrio da vontade, mas acontece ainda que é unicamente por ele que pecamos” (Agostinho, 1995, p. 73).

Essa afirmação de Evódio envolve várias implicações. Agostinho acredita que o livre-arbítrio é um bem e, sendo assim, só pode provir de Deus, pois este é a fonte de todo o bem. Porém, se é por esta liberdade de juízo que o homem peca e, sendo o pecado um mal, ter-se-ia dois problemas fundamentais: o primeiro, se realmente o livre arbítrio é um bem; o segundo, se é por ter a capacidade de livre arbitrariedade que o homem peca, como pode essa capacidade ter sido dada por Deus, que é fonte exclusiva de todo o bem?

É importante ter em mente que mesmo Agostinho sendo cristão e fervoroso na fé, na sua investigação, junta dois meios: fé e razão. Segundo o pensamento agostiniano, não basta apenas ter fé, é necessário saber sobre o que se acredita. E também não basta apenas mover-se pela razão, pois, para que essa seja eficiente, é necessário acreditar no que se investiga. Primeiramente, Agostinho crê e, a partir da crença, investiga sua verdade. Assim, Agostinho se manifesta sobre o crer para entender:

 

[...] Com efeito se crer não fosse uma coisa e compreender outra, e se não devêssemos, primeiramente, crer nas sublimes e divinas verdades que desejamos compreender, seria em vão que o profeta teria dito: ‘Se não o credes não entendereis’[9]( 1995, p. 73).

 

            Portanto, em sua ivestigação sobre o livre-arbitrio, Agostinho primeiramente prova a existência de Deus[10]. Depois, prova que o livre-arbítrio é um bem e, por conseguinte, provém de Deus.

 

 

 

3 A PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS

 

Para chegar à existência de Deus, Agostinho parte do único ser que pode fazer tal investigação: o homem. Agostinho começa afirmando que há três realidades: existir, viver e entender. Dessas três, a mais excelente é a última.  Isso porque, aquele que só existe não vive e nem entende (ex.: objetos inanimados); aquele que só vive, existe, porém não entende (ex.: os animais irracionais); e aquele que entende necessariamente existe e vive (ex.: o homem). Assim, Agostinho expressa: “E admitimos, igualmente, que a melhor das três é a que só o homem possui, juntamente com as duas outras, isto é, a inteligência, que supõem nela o existir e o viver” ( 1995, p. 81).

Agostinho parte do homem porque, partindo da criatura mais completa, chega-se ao criador perfeito. Não que se consigua entender o criador, o que seria impossível, mas ao menos consegue-se comprovar sua existência.

O homem, criado por Deus, possui os sentidos exteriores[11] - visão, audição, tato, paladar, olfato -, que lhe possibilita os primeiros contatos com a realidade. Cada sentido exterior tem sua finalidade e uma categoria de objetos exteriores[12] que lhe é possível identificar, muito embora alguns objetos são identificados por mais de um sentido, mesmo sendo por vias e características diferentes.

A respeito desse raciocínio, Agostinho indaga a Evódio: “Compreendes, pois, igualmente, que cada sentido tem certos objetos próprios sobre os quais nos informam, e que alguns dentre eles percebem objetos de modo comum?”( Ibidem, p. 83). Evódio responde: “Comprendo também isso” (Ibidem, p. 83).

Portanto, de acordo com Agostinho, o homem é dotado de sentidos exteriores que lhe permite identificar os objetos exteriores e cada um tem características e objetos próprios. Mas, há objetos que são identificados por mais de um sentido, mesmo que por vias diferentes. O som, por exemplo, só pode ser identificado pelo sentido da audição. Porém, algo sólido pode ser identificado tanto pela visão como pelo tato.

No entanto, o que faz o homem distinguir o que cabe a cada sentido exterior e o que é comum a eles identificar não são os próprios sentidos exteriores, mas o sentido interior, que é comum ao homem e ao animal. Tal sentido é a faculdade que faz o homem ou o animal, a partir do que observa pelos sentidos exteriores, buscar ou não o que foi observado. Sobre esse assunto, Evódio afirma:

 

 

Graças a esse sentido interior, todos os objetos, não somente os apreendidos pela vista, mas também pelo ouvido e pelos outros sentidos corporais, são: procurados e apossado, [...], no caso de isso lhes causar agrado; ou bem, evitados e rejeitados no caso de lhes serem nocivos. Mas esse sentido interior não se pode dizer que seja, nem a vista, nem o ouvido, nem o olfato, nem o gosto, nem o tato. Ele é, não sei que outra faculdade diferente, que governa universalmente a todos os sentidos exteriores, por igual. (Agostinho, 1995, p. 83).  

 

 

Agostinho concorda com Evódio: “Admito a existência dessa faculdade, seja ela qual for, e sem hesitação denomino-a sentido interior” (Ibidem, p. 84).

Esse sentido interior não é a razão[13], pois, tanto Agostinho quanto Evódio, admitem que o animal também o possui, dado que ele tem a capacidade de rejeitar ou não o que capta pelos seus sentidos exteriores. Não admitem que esse sentido interior seja a razão, pois, se o admitissem, por conseqüência, admitiriam que o animal também é dotado de razão, o que não é verdade. 

O sentido interior é precedente à razão e, é somente pela razão que o homem identifica a ação desse sentido interior. Ou seja, é pela razão que o homem delibera acerca do que é percebido pelos sentidos exteriores, que são movidos pelo sentido interior. Portanto, para Agostinho, a razão está, em nível de importância, acima do sentido interior, que por sua vez, está acima dos sentidos exteriores.

Constata-se, pois, uma escala ascendente no ser que entende: cabe aos sentidos exteriores captarem e absorverem as características dos objetos exteriores; ao sentido interior cabe direcionar os sentidos exteriores a buscar ou não os objetos exteriores; e, por fim, à razão cabe assimilar e processar[14] as informações absorvidas e transformá-las em conhecimento. Em suma, a escala ascendente no homem é: sentidos exteriores, sentido interior e razão.

Na natureza do homem - o único ser que existe, vive e entende - o que há de mais sublime é a razão. Portanto, na escala dos seres não há nada que esteja acima da razão. No entanto, existem verdades que são captadas pela razão, mas que lhe são superiores: os números e a sabedoria.

Agostinho defende que a verdade dos números e da sabedoria está acima da razão, por esta verdade transcender o mundo sensível. Os números não são criados ou estabelecidos a partir das coisas sensíveis. Para Agostinho, a verdade dos números existe fora do mundo sensível e, é pela razão que o homem consegue identificá-la e atribuí-la às coisas sensíveis. Isso porque os números possuem uma lógica imutável, estável e inabalável, que transcende os sentidos exteriores. Agostinho demonstra a lógica perfeita dos números:

 

 

Além do mais, seguindo a série dos números, vemos que depois do um vem o dois, e esse número comparado ao precedente é o seu dobro. Contudo, o dobro de dois não vem logo depois dele, mas sim o três, por meio do qual se chega ao quatro, que é o dobro de dois. [...] Assim, pois, vai acontecer com todos os outros o que foi verificado com o primeiro par de números, isto é, com o um e o dois, a saber: acrescentando a um número qualquer a série de unidades que ele conta, a totalidade obtida é o seu dobro (1995, p. 103).    

 

 

Por fim, ele atesta:

 

 

[...] mas igualmente a quem a teimosia não envolveu nas trevas, são forçados a reconhecer que a lei e a verdade dos números escapam ao domínio dos sentidos corporais, e que essas leis são universais e puras, oferecendo-se universalmente aos olhos de todos aqueles que são capazes de raciocínios (Agostinho, 1995, p. 104). 

 

 

 

Em relação à sabedoria, Agostinho diz que ela é o único meio verdadeiro para se chegar ao Sumo Bem[15]. No pensamento agostiniano, a sabedoria, assim como os números, também é imutável, estável, inabalável e transcende ao sensível. Chegar ao Sumo Bem é o desejo de todos, dado que alcançá-lo resulta em conseguir atingir a felicidade[16] e não há alguém que não a queira. A respeito disso, Agostinho escreve:

 

 

Portanto, como é certo que todos queremos ser felizes, é também certo que queremos possuir a sabedoria. Pois ninguém é feliz sem a posse do sumo Bem, cuja contemplação e posse encontra-se nessa verdade que denominamos sabedoria (1995, p. 107).

  

Agostinho afirma que todos desejam e buscam atingir o sumo Bem que é único e comum a todos. Entende-se assim que, sendo a sabedoria o meio verdadeiro para se chegar ao Sumo Bem, ela necessariamente tem que ser única e comum a todos, devido ao objeto ao qual conduz também possuir essas características.

Um exemplo que a sabedoria está acima da razão humana e que é somente captada por ela, pode ser ilustrado na proposição: os bichos não entendem. Não é a razão do homem que determina que os bichos não entendem. Essa verdade existe por si mesma, o homem apenas a apreende da realidade. Mesmo que o homem não perceba, os bichos continuaram sem poder entender, dado que não possuem a faculdade racional. Portanto, não é o homem que atribui verdade às coisas, o homem a capta. A sabedoria existe por si, o homem a apreende.

Agostinho afirma uma sabedoria única, imutável e comum a todos, tomando como exemplo as virtudes, pois é de comum acordo que para o homem ser virtuoso só há um caminho: agir bem. Para tal fim, é necessário ser sábio, porque sem a sabedoria não é possível deliberar corretamente. Segundo Agostinho, só há um modo de agir bem, negar àquilo que corrompe e prejudica o espírito e praticar ações que elevam o espírito – agir bem. Esse pressuposto é comum e imutável a todo o homem.

Portanto, apesar de toda a pluralidade de conhecimento, existe uma sabedoria transcendente que é única e imutável. E esse é o caminho verdadeiro que conduz ao Sumo Bem, que efetiva a felicidade. Agostinho conclui:

 

 

Portanto, quanto verdadeiras e imutáveis são aquelas leis dos números, das quais, como dizias anteriormente, apresentam-se de modo imutável e universal a todos os que as consideram, e tanto são igualmente verdadeiras e imutáveis as regras da sabedoria (1995, p. 113).

 

 

Apesar dos números e da sabedoria serem verdades únicas e imutáveis, uma não é superior à outra. Elas são idênticas. Ao afirmar isso, Agostinho mostra que existe uma Verdade suprema e indubitável, da qual provêm outras verdades. Essa Verdade é Deus, do qual provém a vontade livre:

 

 

Eis no que consiste a nossa liberdade: estarmos submetidos a essa verdade. É ela o nosso Deus mesmo, o qual nos liberta da morte, isto é, da condição de pecado. Pois a própria Verdade que se fez homem, conversando com os homens, disse àqueles que nela acreditavam: ‘Se permanecerdes na minha palavra sereis, em verdade, meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’[17] (Ibidem, p.121).     

 

 

O Deus de Agostinho não é qualquer deus. Mas sim, o Deus único e verdadeiro, revelado[18] por seu filho Unigênito, Jesus Cristo[19], e divulgado pelo testemunho dos seus apóstolos e discípulos. Esse pensamento não aparece textualmente no Livro II da obra O Livre-Arbítrio, mas pelo fato de Agostinho ter sido presbítero e Bispo da Igreja Católica, pode-se tranqüilamente afirma-lo. No entanto, o que importa é que Agostinho afirma e comprova a existência de Deus:

 

 

Deus, pois, existe! Ele é a realidade verdadeira e suma, acima de tudo. E eu julgo que essa verdade não somente é objeto inabalável de nossa fé, mas que nós chegamos a ela, pela razão, como sendo uma verdade certíssima, ainda que sua visão não nos seja muito profunda, pelo conhecimento (1995, p.126).   

 

 

Deus é, para Agostinho, a fonte de todo o bem. Por conseguinte, sendo o livre-arbítrio um bem, é lógico que esse há de ser concedido por Deus. Após a constatação da existência de um Deus único e fonte de todo o bem, cabe investigar o que Agostinho pensa a respeito do livre-arbítrio como um bem proveniente de Deus.

 

4 O LIVRE-ARBÍTRIO COMO UM BEM PROVENIENTE DE DEUS

 

Agostinho afirma que todo o bem procede de Deus: “[...] é porque todos os bens, sejam eles quais forem, do maior ao menor, não procedem se não de Deus” (Ibidem, p.133).

Agostinho acredita veementemente que Deus é o criador de tudo o que existe. Sua fé se fundamenta principalmente na Sagrada Escritura. Nela, encontra-se a afirmação: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). Na concepção de Agostinho, Deus, Verdade imutável, criou tudo o que há, razão porque toda a criação é um bem.

Sendo assim, persiste o problema já mencionado: Se Deus criou tudo, o livre-arbítrio só poderia provir dele. Mas, se tudo o que provém de Deus é um bem, como pode o livre-arbítrio ser um bem, se é por ele que o homem peca? Agostinho afirma:

 

 

Ora, essas duas verdades: que Deus existe e que todos os bens vêm dele, nós já admitimos com fé inabalável. Entretanto, nós a expusemos de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente, a saber: que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus (1995, p.134).  

 

 

Segundo Agostinho, se o homem não tiver a capacidade de livre escolha, não é possível caracterizá-lo como justo. Isso por que, mesmo que ele pratique a justiça, se não for por livre vontade, mas por uma imposição, não age virtuosamente, pois age por falta de possibilidades.

Do mesmo modo, se não houver a livre vontade, não se pode condenar o homem injusto, pois a ação que o caracterizaria como tal, não seria responsabilidade sua, mas conseqüência da falta de possibilidades. Alguém que age injustamente por falta de possibilidades, não é culpado por suas ações.

Sendo assim, para Agostinho, o livre-arbítrio já é considerado um bem pelo fato de que é por possuí-lo que o homem pode ser considerado justo ou injusto. Ora, ao possuir a liberdade de escolha o homem pode deliberar sobre suas ações. Portanto, se agir bem ou mal a responsabilidade é sua.  Agostinho diz que:

 

 

[...] se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecadores e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado, nem boa ação, caso não fosse voluntária (1995, p.75).

 

A afirmação agostiniana de que o livre-arbítrio é um bem, se fundamenta no fato de derivar dele a capacidade do homem poder escolher entre o que é bom e o que é ruim, possibilitando o desenvolvimento livre do seu espírito. Ao optar pelo bem voluntariamente o homem se torna digno de louvor. Por outro lado, ao optar por não fazer o bem, pode ser repreendido. Para Agostinho, o bem em relação ao livre-arbítrio está no fato de que por ele, Deus concede ao homem o ‘poder’ de escolher voluntariamente fazer o bem.

Portanto, o livre-arbítrio é um bem porque por ele o homem tem a capacidade de tornar seu espírito mais pleno e próximo de Deus livremente. No entanto, mesmo sendo o livre-arbítrio um bem dado por Deus, é por ele que o homem tem a possibilidade de pecar. Agostinho afirma que o pecado está na errada utilização da vontade livre. O homem tem duas grandes escolhas centrais: fazer ou não fazer o bem. Quando o homem escolhe não fazer o bem, peca. Mas, ainda que isso possa acontecer em nada diminui que o livre-arbítrio é um bem.

Agostinho exemplifica: “Com efeito, vês que grande privação é para o corpo não ter as mãos, e, contudo acontece que há quem use mal das próprias mãos. Realizam com elas ações cruéis e vergonhosas” (Ibidem, p.136). 

Em outras palavras, a mão é um bem, mas também pode ser utilizada para o mal. No entanto, o fato do homem utilizá-la de forma errônea não neutraliza nem contradiz o fato dela ser um bem, pois, na sua ausência, o homem é prejudicado, porque perde parte da sua agilidade e autonomia natural. 

Semelhante é com o livre-arbítrio, no pensamento de Agostinho. Por mais que o homem utilize erroneamente a vontade livre, ela continua sendo um bem. Pela sua bondade, Deus concedeu esse dom ao homem, pelo qual ele não é escravo das ‘vontades’ divinas, mas, é livre para optar pelo bem. O bem não é imposto por Deus. O bem é possibilitado por Deus.[20]

Verdadeiramente o livre-arbitrio é um bem proveniente de Deus, como Agostinho sistematiza e prova. No entanto,  há um último ponto a tratar. Agostinho diz que a liberdade da vontade está no fato de escolher entre fazer ou não fazer o bem, mas e o mal que é o pecado, de onde vêm?

O pecado é possível devido ao livre-arbítrio. Diante dessa afirmação, retoma-se a indagação anterior: sendo o livre-arbítrio o que possibilita o surgimento do pecado e, sendo ele proveniente de Deus, é Deus a causa do pecado? Agostinho responde que o pecado não provém de Deus, mas provém do livre afastamento de Deus. O pecado é a negação do bem.

Agostinho não acredita que haja uma causa eficiente do mal[21]. A única causa eficiente metafísica-ontológica que existe é o Sumo Bem, Deus. O mal não provém de uma entidade divina. Ele só passa a existir quando o homem não faz o bem.

Tem-se, pois, a prova agostiniana de que o mal não vem de Deus. É o homem que o gera quando, em sua liberdade, pratica atos que se contrapõem ao bem. Portanto, o mal é a conseqüência do uso deficiente do livre-arbítrio. Se o homem utilizar a vontade livre corretamente, o mal não existirá.

Portanto, mesmo que o homem peque, a vontade livre continua sendo um bem dado por Deus. Deus não é a fonte do mal, pois esse acontece não porque Deus o faz, mas porque o homem, que deveria livremente fazer o bem, opta por não faze-lo. O mal é de cunho moral, pois surge de acordo com a conduta do homem.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Fica explícita a contestação agostiniana às idéias maniquéias. Enquanto para os maniqueus há dois princípios do que é existente, Deus (o Bem) e Satanás (o Mal), para Agostinho, só há um princípio, Deus – o Sumo Bem. Para os maniqueus o homem já nasce bom ou mau, para Agostinho o homem é sempre um bem, porém torna-se mau quando contraria o bem por sua livre vontade.

Na concepção de Agostinho, Deus concedeu o livre-arbítrio ao homem para que agisse retamente e optasse por praticar o bem voluntariamente, não o obrigando a agir bem, mas possibilitando que ele o fizesse. Porém, quando o homem não utiliza sua vontade livre para fazer o bem, torna-se causador do mal. Não há, segundo Agostinho, um ser transcendente que faz com que o mal aconteça. O mal surge, quando o homem, pela sua livre vontade, nega-se a fazer o bem.

Agostinho defende que o livre-arbítrio é um bem, mesmo que o homem o utilize de maneira errada, pois, foi-lhe dado para que deliberadamente agisse retamente a fim de que seu espírito seja elevado à Deus e possa gozar da verdadeira felicidade. Tudo que Deus fez é um bem indubitavelmente.

 

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os Pensadores).

_____. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. p. 73. (Os Pensadores).

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1985.

CATECISMO. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 200.

LORENZO, Alvarez et al. Lexicon – Dicionário Teológico Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003.

MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual esquemático de história da filosofia. 2.ed. São Paulo: LTr, 2000.

 



[1] Acadêmico do 3º Semestre do Curso de Filosofia da Faculdade Palotina – FAPAS.

[2] Tradução para o português, introdução e notas de Nair de Assis Oliveira; revisão de Honório Dalbosco.

[3] Sua mãe, de nome Mônica, hoje é considerada Santa pela Igreja Católica. Do ponto de vista religioso a conversão de Agostinho ao Cristianismo deve-se à assídua oração de Mônica a Deus pedindo que seu filho se convertesse. Para saber a respeito de Mônica e de sua importância na conversão de Agostinho pesquisar AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 94-96/145-147/239-253. 

[4] Doutrina na qual Agostinho participara antes de se converter ao Cristianismo. Essa doutrina tem como verdade que o mundo é dividido e regido por  dois principios: o Bem e o Mal. Foi elaborada a partir da junção de três doutrinas: o zoroastro, o budismo, e o cristianismo. E seu fundador foi Mani. (Cf.ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 641.). 

[5] Agostinho foi ordenado não por iniciativa própria, mas pelo desejo do povo. Num certo dia de 391, o bispo Valério de Hipona  perguntou à assembléia de sua diocese quem eles gostariam que exercesse o ministério de coadjuntor nos serviços sacerdotais, especialmente na pregação. O povo pediu que Agostinho fosse ordenado presbítero. Agostinho, de início, não se agradou com a idéia, mas pelo povo decidiu exercer tal ministério. (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 9. (Os Pensadores) ).

[6] Igreja Católica Apostólica Romana.

[7] Em Agostinho a problemática do mal pode ser dividida em três níveis: o primeiro é relativo ao mal ontológico, que para Agostinho não existe;  o segundo é relativo ao mal moral, que para ele é o pecado; o terceiro é relativo ao mal físico, que ele caracteriza como sendo as doenças e os sofrimentos, que são conseqüências do pecado original. (Cf. MARTINS FILHO, Ives Granda da Silva. Manual esquemático de história da filosofia. 2.ed. São Paulo: LTr, 2000.).

[8] Para Agostinho esse livre-arbítrio não apenas provém de Deus, mas também era necessário que Deus o tivesse concedido ao homem: “[...] era necessário que Deus desse ao homem essa vontade livre”. (AGOSTINHO, Santo. O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995. p. 75. (Os Pensadores)).

[9] Is 7,9.

[10] A importância de se provar primeiro a existência de Deus está no fato de que, para Agostinho, é dele que provém o livre-arbitrio. Sendo assim, para sustentar que a vontade livre do homem é um bem, por provir de Deus, é necessário primeiro provar que esse existe e que ele é a fonte de todo o bem.

[11] ‘Sentidos exteriores’ é uma expressão própria da tradutora. Agostinho os chama de ‘sentidos corporais’. Porém, aqui será utilizado a primeira expressão.

[12] Objetos exteriores são os objetos (coisas) que compõem o mundo sensível.

[13] Razão: Referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação. Nesse sentido, dizemos que a razão é uma ‘faculdade’ própria da homem, que o distingue dos animais. (Cf.ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 824.).

[14] É atraves das ligações feitas pela razão que podemos fazer ciência.

[15] É a plenitude de todos os bens. É o Ser que dá origem a todos os bens.

[16] A verdadeira felicidade, nas palavras de Agostinho: “Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas só àqueles que desinteressadamente Vos servem: essa alegria sois Vós. A vida feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz e não há outra.” (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 281.).

[17] Jo 8,31-32.

[18] Em teologia, revelação significa: “Ato livre com que Deus comunica seu mistério à humanidade convidando-a à partilha. O ponto mais alto da revelação é a ‘crística’. A revelação da palavra se fez ‘carne’ e o alfabeto de Deus toma corpo na linguagem de Jesus de Nazaré. Esta revelação, como indica a Dei Verbum no n. 4, deve ser considerada ‘definitiva’ e ‘completa’ porque em Jesus Cristo, Deus diz tudo o que, no mistério de seu amor, queria comunicar à humanidade”. (Cf. LORENZO, Alvarez et al. Lexicon – Dicionário Teológico Enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003. p. 633.).

[19] A Igreja Católica professa em sua fé que Jesus Cristo é o filho do Deus Verdadeiro, é o verbo de Deus que se fez carne e habitou entre os homens. A principal missão de Jesus segundo os que acreditam em sua divindade foi ‘revelar’ o amor de Deus Pai aos homens. (Cf.: Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000, p. 119.)

[20] Cf.: AGOSTINHO, Op. cit. p. 136.

[21] Os maniqueus afirmavam que o mal provinha de Satanás, que, para eles, é um ser igual a Deus e fonte de todo o mal. Agostinho quer contrapor essa idéia, pois, para ele, só há Deus. Não há outra entidade que esteja em igualdade a Deus e que dê movimento ao mal.  Nas palavras de Agostinho: “Em, absoluto, o mal não existe nem para Vós nem para as vossas criaturas, pois nenhuma coisa há fora de Vós que se revolte ou que desmanche a ordem que lhe estabelecestes.” (Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p.188).

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